Maternidade na Umbanda: O Que Realmente Significa o Princípio Materno?

Descubra o verdadeiro significado da maternidade na Umbanda, suas raízes ancestrais, Orixás, o papel de Oxum, das Iyamis e o poder feminino que sustenta o axé.

12/1/20258 min read

Introdução — A Maternidade Como Mistério Sagrado na Espiritualidade Afro-Brasileira

A maternidade na Umbanda é, antes de tudo, um mistério. E não apenas um mistério ligado ao nascimento humano, mas um princípio universal que sustenta o axé, organiza a vida e mantém o equilíbrio entre o visível e o invisível. Quando falamos em maternidade dentro da cosmologia afro-brasileira, não estamos falando apenas do ato de gerar filhos, mas de um movimento mais amplo: o gesto ancestral que cria mundos, sustenta caminhos e renova destinos. É por isso que, ao longo da história, as tradições de origem yorubá foram tão cuidadosas ao tratar do princípio feminino. Para elas, o feminino não é apenas uma parte da criação — é a própria engrenagem que torna a existência possível.

A Umbanda herda esse olhar, ampliando-o e traduzindo-o de maneira acessível para todas as pessoas. Mesmo quem não é iniciado em nenhuma religião de matriz africana pode reconhecer, na sensibilidade da vida cotidiana, sinais da maternidade ancestral que permeia tudo. Quando acolhemos alguém, quando guiamos um amigo em crise, quando criamos algo que transforma o mundo ao nosso redor, estamos expressando aspectos desse princípio materno. A realidade é que, dentro da espiritualidade afro, maternidade é movimento, força, cuidado e responsabilidade. E, acima de tudo, é axé.

A Narrativa da Criação: O Princípio Feminino Esquecido e o Mundo que Parou

Uma das histórias mais simbólicas para compreender a maternidade na tradição yorubá aparece em diversas obras — acadêmicas, iniciáticas e literárias — e fala sobre os dezesseis seres divinos enviados por Olodumare para preparar o mundo. A narrativa afirma que, entre esses seres, apenas um era mulher. Os quinze restantes, movidos pela arrogância e pela certeza de que podiam cumprir a missão sozinhos, ignoraram sua presença desde o momento em que deixaram o Orun para descer ao Aiyê. Eles acreditavam que poderiam transformar a Terra em um ambiente fértil, organizado e preparado para receber a vida sem qualquer contribuição do princípio feminino.

Entretanto, ao chegarem ao mundo, perceberam que nada prosperava. As plantas secavam, as fontes desapareciam, os animais não se reproduziam e a terra se tornava cada vez mais árida. Por mais que tentassem, algo estava profundamente errado. O tempo determinado por Olodumare estava prestes a acabar, e a missão não avançava. Foi somente quando voltaram ao Criador que ouviram a repreensão: ao excluir a única portadora do axé feminino, eles haviam comprometido toda a estrutura da criação. O mundo não podia ser gerado sem o poder materno, pois é nele que reside a sustentação da vida.

O Retorno da Energia Feminina: O Momento em Que o Mundo Ganha Movimento

Quando confrontados por Olodumare, os quinze seres divinos finalmente reconheceram a ausência que haviam provocado. A ancestral feminina ignorada — chamada em algumas versões de Oshé, e em outras associada diretamente a Oxum — retornou apenas quando recebeu os mesmos direitos, oferendas e respeito que os demais desfrutaram. Sua exigência não era capricho: era a reafirmação de que o princípio feminino não é acessório, mas essencial. Ao retornar, ela trouxe com ela não apenas o axé da fertilidade, mas a energia necessária para organizar e harmonizar o mundo.

A partir desse momento, a vida começou a florescer. A água voltou a correr, as plantas retomaram seu ciclo e os animais começaram a se multiplicar. Mais do que um mito, essa narrativa é um lembrete espiritual sobre a importância da inclusão, da cooperação e da valorização do feminino em todas as suas expressões. Ela nos convida a refletir sobre quantas vezes, na nossa própria vida, tentamos resolver tudo sozinhos, ignorando a força que nasce do cuidado, da sensibilidade e da intuição — forças que, dentro da Umbanda, são profundamente reconhecidas como expressões da maternidade ancestral.

Oxum: A Guardiã da Sensibilidade, da Fertilidade e do Axé que Estrutura a Vida

Dentro da Umbanda, Oxum é muito mais do que a Orixá da água doce. Ela representa a força que conduz o afeto, que organiza a vida emocional e que sustenta os vínculos que mantêm a comunidade de pé. Oxum é a senhora da delicadeza que cura, da intuição que guia e da sabedoria que ensina sem ferir. Sua maternidade não é apenas geradora — é estruturante. Ela cria, mas também sustém, organiza e repõe o que falta. Quem cultua Oxum sabe que seu axé se manifesta na capacidade de transformar emoções desalinhadas em caminhos de equilíbrio.

A maternidade de Oxum também é profundamente prática. Ela se expressa no cuidado com as relações, na atenção aos detalhes, no jeito com que acolhemos quem amamos e até na forma como organizamos nossas próprias emoções. Para a tradição yorubá, uma pessoa que vive sem as águas de Oxum vive seca por dentro. Isso se revela no comportamento, na forma como lidamos com nossos afetos e no modo como reagimos às situações cotidianas. Por isso, Oxum nos ensina que maternidade é, antes de tudo, sensibilidade ativa: aquele cuidado atento que mantém a vida pulsando.

As Iyamis: O Poder Silencioso das Grandes Mães Ancestrais

Para compreender a maternidade plena dentro da Umbanda e de outras tradições afro-brasileiras, precisamos olhar para as Iyamis — as Grandes Mães, as ancestrais que representam o útero primordial. As Iyamis não são apenas entidades femininas: elas simbolizam o mistério do que está entre a vida e a morte, aquilo que não pode ser explicado, apenas sentido. Sua força é tão intensa que, em muitas tradições, seu nome é pronunciado com respeito absoluto, pois elas carregam o poder da justiça profunda, aquela que atua quando tudo mais falha.

A energia das Iyamis nos recorda que maternidade também envolve limites, proteção e firmeza. Não existe cuidado real sem responsabilidade, e as Iyamis representam exatamente esse ponto onde o amor e a justiça se encontram. Em termos contemporâneos, podemos dizer que as Iyamis simbolizam aquela força interior que nos impede de tolerar injustiças, que nos orienta a tomar decisões difíceis e que nos sustenta quando precisamos nos reinventar. Elas mostram que a maternidade não é apenas acolhimento: é também postura, decisão e sabedoria ancestral.

Maternidade Espiritual na Umbanda: Muito Além da Biologia

Na Umbanda, a maternidade espiritual é um dos pilares da caminhada mediúnica. Diferente da maternidade biológica, que depende da natureza física, a maternidade espiritual nasce da responsabilidade emocional e energética que alguém assume dentro da comunidade. Uma mãe espiritual é uma referência, uma guia, alguém que apoia, ensina, corrige e acompanha. Ela não gera no corpo — gera no axé. Essa ideia explica por que tantas pessoas que nunca tiveram filhos biológicos são reconhecidas como grandes mães dentro da religião.

Da mesma forma, a maternidade espiritual aparece nas entidades femininas que trabalham nos terreiros: Pretas-Velhas, Caboclas, Pombogiras Madres, Exus Mulheres, Marinheiras, Iabás e tantas outras linhas que trazem consigo diferentes expressões da maternidade ancestral. Cada uma delas cuida de um aspecto da vida humana: algumas trabalham o afeto, outras a justiça, outras a autoestima, outras a proteção espiritual. É por isso que a Umbanda é uma religião acolhedora — porque a energia materna está presente em todos os seus aspectos.

A Maternidade Como Caminho de Axé: Gerar, Sustentar e Transformar

Quando olhamos para a maternidade dentro da cosmologia afro-brasileira, percebemos que ela está sempre ligada ao movimento: gerar algo, sustentar esse algo e permitir sua transformação. Em outras palavras, maternidade é processo. Se pensarmos na nossa vida cotidiana, podemos identificar esse processo em várias situações: quando começamos um projeto, quando cuidamos de um relacionamento, quando ajudamos alguém a amadurecer, quando damos vida a uma nova versão de nós mesmos. Tudo isso é, de alguma forma, maternidade em ação.

Essa compreensão também transforma o modo como enxergamos o axé. Axé não é apenas energia espiritual — é continuidade. Não existe axé sem cuidado, sem responsabilidade e sem uma postura ativa diante da vida. Por isso, Orixás como Oxum, Iemanjá, Nanã e Obá são fundamentais para quem busca equilíbrio emocional e clareza de propósito. Elas mostram que viver é uma construção constante e que nada se sustenta sem um olhar materno sobre a existência. Esse ensinamento se torna ainda mais poderoso quando aprendemos a aplicá-lo em nossas relações, escolhas e projetos.

As Diferentes Expressões da Maternidade nas Tradições Afro-Brasileiras

Embora Umbanda, Candomblé, Quimbanda e Ifá compartilhem raízes africanas, cada uma dessas tradições desenvolveu sua própria forma de compreender e reverenciar a maternidade. Na Umbanda, por exemplo, a maternidade se expressa muito no acolhimento emocional e na cura afetiva. Já no Candomblé, a figura da Yalorixá mostra a maternidade como liderança, tradição e responsabilidade comunitária. Na Quimbanda, as Pombogiras Madres simbolizam a maternidade de transformação, aquela que ajuda a pessoa a renascer depois de períodos difíceis. E no Ifá, inúmeros Odus tratam da maternidade como princípio cósmico, orientando a pessoa no caminho do equilíbrio.

Essas diferenças não são contradições — são complementaridades. Cada tradição ilumina um aspecto da maternidade, permitindo que ela seja vista não como algo restrito, mas como um campo amplo, profundo e multifacetado. Ao compreender essas diferentes expressões, ampliamos nossa capacidade de reconhecer as múltiplas presenças do princípio materno na nossa vida. E quanto mais reconhecemos essas presenças, mais aprendemos a nos relacionar com o mundo de forma equilibrada, respeitosa e consciente.

Como Despertar o Princípio Materno na Vida Diária: Um Guia Prático

Despertar a maternidade espiritual não significa tornar-se mãe, mas cultivar atitudes que mantêm a vida fluindo com mais equilíbrio. Um dos caminhos mais simples é o cuidado com a água — elemento de Oxum — que pode ser usado em banhos, limpezas simbólicas ou até no hábito de lavar o rosto pela manhã pedindo serenidade. Outra prática importante é o silêncio ritual, que honra as Iyamis e fortalece nossa intuição. Um minuto de silêncio consciente pode revelar soluções que o barulho cotidiano esconde.

Escrever sobre as próprias emoções é outra ferramenta poderosa. Oxum nos ensina que organizar sentimentos é essencial para uma vida equilibrada. Além disso, pequenos atos de cuidado — como oferecer apoio emocional, ajudar alguém em dificuldade ou sustentar projetos coletivos — ativam o axé da maternidade dentro de nós. Nada disso exige conhecimento religioso profundo: exige apenas disposição para nutrir, sustentar e transformar a vida ao nosso redor. O princípio materno sempre responde quando é honrado.

Conclusão - Honrar o Princípio Feminino é Honrar a Vida

Celebrar a maternidade dentro da Umbanda é compreender que ela ultrapassa qualquer fronteira física, social ou biológica. Maternidade é o gesto de dar vida, mas também de manter essa vida pulsando. É a força que cria, organiza e transforma. É o axé que flui pelas águas de Oxum, pela firmeza das Iyamis, pelo cuidado das Pretas-Velhas e pela sabedoria ancestral das Yalorixás. Quando honramos esse princípio, honramos a própria existência. Que a energia das grandes mães ancestrais continue nos guiando, nos protegendo e nos lembrando que cada ato de cuidado é uma forma de manter o mundo vivo.

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Perguntas Frequentes sobre Maternidade na Umbanda

1. O que significa maternidade na espiritualidade afro-brasileira?
Significa o princípio criador e sustentador do axé, representando cuidado, sabedoria, proteção e continuidade da vida.

2. Quem são as principais representantes da maternidade na Umbanda?
Oxum, Iemanjá, Nanã, Obá, Pretas-Velhas e as Iyamis, cada uma com uma expressão específica do princípio materno.

3. Maternidade espiritual é o mesmo que maternidade biológica?
Não. Maternidade espiritual é uma missão energética e emocional que exige responsabilidade, cuidado e orientação.

4. Como despertar o princípio materno no dia a dia?
Práticas com água, silêncio ritual, escrita emocional e pequenos gestos de cuidado despertam esse axé.

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